terça-feira, 19 de maio de 2009

Cresça e divirta-se

"Tenho viajado bastante para acompanhar algumas pré-estreias do filme Divã, baseado no meu livro homônimo. Delícia de tarefa, ainda mais quando a gente gosta de verdade do trabalho realizado, e esse filme realmente ficou enxuto, delicado e emocionante. Além disso, ainda consegue me provocar. A personagem Mercedes (vivida pela incrível Lilia Cabral) está fazendo análise e leva pro consultório muitos questionamentos sobre sua vida. Até que, passado um tempo, finalmente relaxa e se dá conta de que não há outra saída a não ser conviver com suas irrealizações. Diante disso, o analista sugere alta, no que ela rebate: Alta? Logo agora que estou me divertindo? Eu tinha esquecido dessa parte do livro, e quando vi no filme, me pareceu tão cristalino: um dos sintomas do amadurecimento é justamente o resgate da nossa jovialidade, só que não a jovialidade do corpo, que isso só se consegue até certo ponto, mas a jovialidade do espírito, tão mais prioritária. Você é adulto mesmo? Então pare de reclamar, pare de buscar o impossível, pare de exigir perfeição de si mesmo, pare de querer encontrar lógica pra tudo, pare de contabilizar prós e contras, pare de julgar os outros, pare de tentar manter sua vida sob rígido controle. Simplesmente, divirta-se. Não que seja fácil. Enquanto que um corpo sarado se obtém com exercício, musculação, dieta e discernimento quanto aos hábitos cotidianos, a leveza de espírito requer justamente o contrário: a liberação das correntes. A aventura do não-domínio. Permitir-se o erro. Não se sacrificar em demasia, já que estamos todos caminhando rumo a um mesmo destino, que não é nada espetacular. É preciso perceber a hora de tirar o pé do acelerador, afinal, quem quer cruzar a linha de chegada? Mil vezes curtir a travessia. Dia desses recebi o e-mail de uma mulher revoltada, baixo-astral, carente de frescor, e fiquei imaginando como deve ser difícil viver sem abstração e sem ver graça na vida, enclausurada na dor. Ela não estava me xingando pessoalmente, e sim manifestando sua contrariedade em relação ao universo, apenas isso: odiava o mundo. Não a conheço, pode sofrer de depressão, ter um problema sério, sei lá. Mas há pessoas que apresentam quadro depressivo e ainda assim não perdem o humor nem que queiram: tiveram a sorte de nascer com esse refinado instinto de sobrevivência. Dores, cada um tem as suas. Mas o que nos faz cultivá-las por décadas? Creio que nos apegamos com desespero a elas por não ter o que colocar no lugar, caso a dor se vá. E então se fica ruminando, alimentando a própria “má sorte”, num processo de vitimização que chega ao nível do absurdo. Por que fazemos isso conosco? Amadurecer talvez seja descobrir que sofrer algumas perdas é inevitável, mas que não precisamos nos agarrar à dor para justificar nossa existência.
(Texto de Martha Medeiros, publicado no Jornal Zero Hora/RS em 12/abril/2009)
**************************************************
Ci>> Há vida após a dor... e como há! Basta manter o corpo funcionando, a mente cheia de ocupações, as idéias trabalhando a todo vapor. Não procurar pelo que lembra àquela tristeza e não buscar pelo que traz as lembranças se elas ainda machucam faz parte do processo. Não significa esquecer, significa dar um tempo se a ferida ainda está aberta. Ninguém veio à esta existência para sofrer, e todas as coisas que nos acontecem, absolutamente tudo pelo que passamos tem um porquê e nos leva para alguma nova fase, como em um vídeo-game. Se erramos, temos a chance de aprender com este erro e tentar acertar a fase novamente, para avançar até o fim do jogo. Se permanecemos na mesma fase por opção e medo de avançar, não agregamos nada em nós mesmos. Pense em quantas novas coisas nos esperam na fase seguinte, quantas descobertas, quantas novas vidas teremos! Outros personagens, outros cenários, outras legendas... Procure curar suas feridas, não mentindo para si mesmo, mas de verdade, buscando a cada dia pular os obstáculos desta fase atual. Se as lembranças te machucam, guarde-as em um lugar bem escondidinho, até que possa olhá-las novamente, sem dor. Já já vem a mensagem de "Start the next" e voce vai ver que os próximos obstáculos serão bem mais desafiadores e emocionantes! E com um "up": já teremos a experiência da fase anterior, então, serão também mais fáceis de ultrapassarmos! ;D

Nenhum comentário:

Postar um comentário