segunda-feira, 18 de maio de 2009

O escultor e a mulher de barro

Ninguém o amava. Era esse o pensamento dele e o motivo dessa estória. Ele pensou que se de certa forma, construisse alguém, fizesse alguém, então esse alguém o amaria.Era isso o que ele fazia, afinal de contas. Ele esculpia.
Então, certo de que ninguém o queria, resolver esculpir uma mulher, pensou na mais bela de todas e a usou de molde, e a foi fazendo: primeiro os olhos. Trabalhou bastante neles. Queria-os perfeitos. Mais perfeitos que o resto. Fez o nariz como queria que ele fosse nela, discreto. Depois fez a boca ao seu grado, suave e doce. Trabalhou o rosto inteiro durante duas semanas, foi dificil, mas fez até o detalhe dos cílios e das covinhas das bochechas.Começou o corpo que fez, deveras, escultural. Sentiu-se depravado ao faze-lo, quase que não terminou por vergonha, pois, é obvio, o fez nu, mas trabalhou duro se convencendo de que não estava errado, por ora era uma escultura como dentre tantas outras que ele fizera… Não, não era. Era mais perfeita.Com certeza mais perfeita.
Levou ao todo mais duas semanas para terminar o resto do corpo e deu atenção especialmente para as mãos, as quais imaginava o afagando e lhe dando carinho. Ela seria dele e somente dele. Para sempre.Quando terminou e o barro secou por inteiro, comprou-lhe roupas. Mas o tom completamente marrom uniforme a deixava estranha naquele vestido dourado, com pequenos detalhes perolados, aqueles espalhados como gotinhas. Sim, a deixava bizarra.Comprou tinta e juro que levou um mês até que tivesse a segurança de ter escolhido a tinta certa, no tom certo e que tivesse aprendido as melhores técnicas de pintura da modernidade. Só então pintou-a. Preferiu ela branquinha, não por racismo, mas que lhe encatava a descrição da branca-de-neve e a queria assim, branca como a neve que nunca vira. Os cabelos? Pensou em morenos, mas deixou-os castanhos, pois os tinha feito ondulados e sempre achara que cabelos ondulados deviam ser castanhos. Nenhum motivo em especial. A boca deixou vermelhinha, pois já era veludosa. Foi minucioso em sua pintura. Um trabalho digno de um gênio, diriam. Agora, vestida, era quase uma pessoa de verdade. Faltavam-lhe brincos. Comprou-os. Anéis? Logo em seguida. Enfim, qualquer pessoa que passasse sem prestar a atenção devida comprimentaria o manequim de barro. O escultor então dormia deitado em seu colo, contava-lhe as dificuldades de sua vida, segredava-lhe tudo. Foi então que ocorreu algo misterioso.
Um dia quando voltava do mercado, a mulher-de-barro não se encontrava no lugar costumeiro e o escultor se desesperou, revistou toda a sala, correu para a rua procurando o maldito ladrão que levara o único bem de sua vida e quando voltou havia uma mulher sentada em seu sofá. Seus cabelos esvoaçavam com o vento que entrava pela porta aberta. Tinha cabelos castanhos e uma boca sedosa que lhe sorriu. E ele desmaiou. Acordou deitado no sofá, cheio de perguntas, achando que fora um sonho ou que finalmente tinha ficado louco, mas querendo acreditar que não. E não era isso.A viu ali, olhando pra ele. Ela piscou… Assim, como gente! E ele quase desmaiou de novo. Perguntou e perguntou, mas ela não sabia responder… Dissera que ouvia cada palavra que ele dizia quando vinha lhe segredar as coisas do mundo, mas era imóvel, disse-lhe que sentia saudades quando partia, que ficava feliz quando voltava, mas que não conseguia mover um “músculo” sequer. Antes era feita de barro, agora era mulher. Eis um dos grandes mistérios da vida. O escultor, claro, nunca esteve tão feliz! Nunca cantou tanto, nunca bradou tanto, ele seria feliz para a sempre com aquela mulher. A mulher de seus sonhos! Logo vieram as festas, vieram os bailes, enfim o casamento e ele era um artista famoso por dar vida as suas obras. Sem contar que a mulher de barro despertava a inveja de muitas outras mulheres, sua beleza era inegualável. Seu olhar rivalizava com o sorriso de Monaliza de DaVinci, de tão belo.Logo, o escultor começou a ser assediado por fãs escandalosas, estudantes de artes, atrizes de cinema, todas queriam uma escultura, posar para que ele as imortaliza-se, todas queriam um pedaço dele, dariam tudo por ele. E sua mulher lhe sorria e dizia que estaria tudo bem.
Não demorou muito ele tinha mais amantes que Don Juan e vivia uma vida na esbórnia, bebendo e indo em festas com as mais belas mulheres. Vendia suas esculturas a preço de milhões. Depois, um dia, cansado, voltou para a própria casa, tirando ele mesmo os próprios sapatos e as roupas. Se jogou na própria cama e sentiu um prazer naquilo que ele esquecera, mas faltava-lhe algo. Algo que ele não conseguia identificar.Procurou sua mulher para que esta lhe ajudasse a identificar o que era essa algo que faltava… Não a encontrou. Ficou um pouco exasperado, depois apreensivo e então preocupado.Chamou a criada, mas a sua mulher já não vista em casa fazia uns dias.
Notou então que o chão estava sujo e amarronzado. Brigou com a empregada, e quase a demitiu, até que ela murmurou baixinho que era descuido dele deixar uma das estatuas na sala, e justo aquela que era tão parecida com a patroa e tão linda, e que era óbvio que ali ela quebraria… Era óbvio que quebraria.
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(Rafael Rabelo)
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Para todos aqueles que não dão valor a quem dá sentido à sua vida.
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Ci>> "...Somos responsáveis por aqueles que cativamos...." - por seus sentimentos inclusive!!! Sejamos responsáveis para com o coração alheio... se alguém te magoou um dia, ame o dobro para compensar, não machuque para se vingar! pq o plantio eh opcional, mas a colheita é obrigatória!

Um comentário:

  1. Eh um dos textos que eu mais gosto... Que bom que gostou!! :D

    E que ótimo que transcreveu ^^

    E juro que não tinha feito a relação com o pequeno principe... O.O

    Normalmente eu faço essas coisas, de me inspirar num outro texto, meso que seja uma coisa mto sutil... Mas, nossa, fiz isso com esse dae XD

    Leio-te mais depois
    Beijos =*

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