segunda-feira, 8 de junho de 2009

A Arte de Sonhar (Segundo Fernardo Pessoa e Dummond)

Sou sempre dois ou três nas minhas opiniões, me apoio, me discordo e me ignoro, sou português e brasileiro, sou homem de sonhar e de tentar realizar o sonho, posto que sonho é, por definição, inalcançável, mas não de certo modo, intentável.
Podemos contradizer-nos e alcançar um sonho, sonhando-o ainda. Deixemos de lado o mérito de “Como sonhar”, pensemos no porque sonhar.
-Então, por que sonhas? Digo eu a mim.
-Sonho porque sinto necessidade do sonho, sem ele me sinto vazio e frio. E tu? Porque sonhas?
-Ora, deixa de lado o sofismo, que somos ambos mesma linha do pensamento. (Há aqui uma pausa) Sonho porque quero algo que satisfaça meu orgulho. – Respondo-me.
-Ah tens então um orgulho escondido por detrás do sonho?
-Claro que tem, não sonhamos senão com intuito -ainda que desesperançado- de realizar o sonho, realizar algo grandioso é então, de fato, motivo de orgulho e o orgulho se procura, como sabemos ambos.
Resulta que todos sonhamos por realizar o sonho, e as vezes nem nos importa o que seja, o importante é realizar, mas há quem saiba sonhar e nisso se vence, não se “engana” se enganando, sonha coisas impossiveis o suficiente pra que o sentimento que vem do sonho seja algo absurdo e não se sinta impelido a realiza-lo.
O sonho. Ele, pra mim, é simplesmente desejar algo imaginário. Simples, não? Mas eis o grande mal e o grande poder da humanidade, tentar tornar o imaginário real.
Simplesmente se sonho uma maçã, não haverá no mundo maçã que possa ser igual e se um dia encontro uma queira, já não é mais sonho e tento agora obter outra coisa.
Verdade que o sonho perde seu sentido quando é realizavel, mas nunca o é, verdadeiramente.
Se sonho um amor, ir atrás desse amor só me fará ignora-lo, caso o encontre e se um dia encontro esse amor do jeito que queria, me parece fosco diante do que sonhei ou ainda perde o brilho quando percebo que o tenho agora, realizado.
Na maçã, se sonhei com ela, me satisfaço e esqueço-me enquanto digiro-a. Eis que pra evitar tal frustação, sonhamos coisas impossiveis, como eu disse, ou coisas bem pequenas, do cotidiano, que posso sonhar a vontade e não terei dor ao vê-la partir em sonho, desfocando-se.
Mas que fazer com o sonho, quando se realiza? Desfruta-lo, me dirão uns. Sonhar outros, me dirão outros ainda. Mas se é para desfrutar o sonho, por que simplesmente não desfrutar o sonhar, ao invés de matar o sonhar, trocá-lo por objetivar e gozar do sonho realizado?
E por que Essa-Divindade-Suprema-Que-Desconheço-O-Nome sonhar vários sonhos, se posso gozar infinitamente uns poucos, vendo-lhes a beleza e a poesia e vivendo-os melhor e não realizando-os, talvez, mas simplesmente sonhando.
E isto é digno de Fernando Pessoa, que diz em seu “Livro do Desassossego” que não devemos tentar realizar o sonho, já que isto é algo intimo e subjetivo o suficiente pra ser impossivel de ser realizado.
Porém, Drummond sonhou uma pedra, Sonhou uma Lua-Satélite, sonhou bundas, seios e sexo e todas essa coisas-comuns. Há como realiza-las, com certeza, mas fez disso objetivo? Por acaso planejou o sexo? Ou sonhou com ele depois de consumado?
Drummond foi um poeta sonhador quando sonhava algo tão fugaz que nem se percebia quando o sonho se realizava.
Sonha teus sonhos e faz dos teus objetivos coisas pra serem objetivadas.
Faz daquele exercício um objetivo, faz daquela mudança de jeito um objetivo, faz largar do vicio um objetivo! Mas não objetiva o amor! Nem a profissão (Naturalmente sonhada), nem a mulher, nem a casa ou país. Isto é a arte de sonhar.
Sonha tua esposa quando olhares pra ela ao luzir da lua, sonha teu emprego de Soberano do Mundo, que é impossivel. Teremos então mais Drummond’s e mais Pessoas no mundo, o que o tornará deveras mais agradável e mais comum a Arte de Sonhar.

(Rafael Rabelo - do blog "o Trovador")

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Ci>> achei o máximo este texto, do blog do meu novo amigo Rafa... é o outro lado do sonho, aquele sonho totalmente real, de formas e cores, de fácil sentir... porque deste tipo de sonho podemos tirar tudo o que há de mais concreto, e montar caminhos pelos quais percorreremos ao longo da vida, fazer destes sonhos algo mortal. Não que sonhar algo impossível seja ruim, pelo contrário, nos tira deste mundo louco e nos leva a um mundo nosso, cheio de encanto e fadas, e anjos, e tudo o mais que assim quisermos ver. Mas não é também ruim ter um sonho real, porque dele se parte para algo que possamos pegar, sentir de verdade, e o prazer, o orgulho falado no texto aí em cima, por ter "conquistado este sonho" assemelha-se ao de ter "alcançado o objetivo". Eu não diria que são similares os comentários, diria que são complementares, porque vejo "o sonho" com os dois sentidos funcionando: o da alma (pelo coração) e o razão (pela mente). Sou pisciana até a ultima gota do meu ser, e sonhar é tudo o que me move... ainda que realizar seja tudo o que me incita a viver cada um dos meus sonhos... afinal, foram justamente os meus sonhos que me trouxeram até aqui!

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