sexta-feira, 26 de junho de 2009

Assunto: "Sempre temos alguma coisa a dizer sobre o..."

...maior paradoxo do amor:
A união de dois seres, contudo separados.
Para que isso seja atingido; devemos respeitar o ser como tal e reconhecer sua individualidade.
Nisso fundamenta-se a cumplicidade.
Hengel afirma:
"Amar é estender o seu corpo em direção a um outro corpo;mas é também, mais fundamentalmente, exigir que esse corpo, que ele deseja, também se estenda; é desejar o desejo do outro"
Essa é a base da cumplicidade.
"Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa a especialidade do meu desejo"
"Roland Barthes"
Cabe aqui a decupagem literária contida em "Fragmentos de um discurso amoroso":
Adorável é o vestígio fútil de um cansaço, que é o cansaço da linguagem.
De palavra em palavra me esforço para dizer de outro modo o mesmo da minha Imagem, impropriamente o próprio do meu desejo: viagem ao término da qual minha última filosofia só pode reconhecer - e praticar - a tautologia.
É adorável o que é adorável. Ou ainda: adoro você porque você é adorável, te amo porque te amo. Assim, o que fecha a linguagem amorosa é aquilo mesmo que a instituiu:
"A fascinação."
Pois descrever a fascinação não pode nunca, no fim das contas, ultrapassar este enunciado:
"estou fascinado."
Ao atingir a extremidade da linguagem, lá onde ela não pode senão repetir sua última palavra, como um disco arranhado, me embriago de sua afirmação:
"A tautologia não é esse estado inusitado, onde se acham misturados todos os valores, o fim glorioso da operação lógica, o obsceno da tolice e a explosão do sim nietzschiano?"
"Estou apaixonado? - Sim pois espero."
O outro não espera nunca.
Ás vezes quero representar aquele que não espera;tento me ocupar em outro lugar, chegar atrasado; mas nesse jogo perco sempre:
"O que quer que eu faça, acabo sempre sem ter o que fazer, pontual, até mesmo adiantado."
A identidade fatal do enamorado não é outra senão:
"Sou aquele que espera"
Dizem-me: esse gênero de amor não é viável. Mas como avaliar a viabilidade? Por que o que é viável é um bem? Por que durar é melhor que inflamar?
"Roland Barthes"
O exercício da posse; deturpou a palavra ciúme, que deveria significar zelo (para com outrem) e preocupação (para consigo).Discordo de quem atribui esta transformação ao desenvolvimento da sociedade comercial centrada no valor de ter.Sua origem é mais longínqua e esta relacionada com o poder.
Goethe, afirma:
"Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum."
A definição de Litté é conclusiva:
"O ciúme é medo que a gente sente, de que a pessoa amada{por nosso incompetência} se apaixone por outrem"
Em meu imaginário crio as situações de acordo com minha necessidade, no outro ser tento a realização da fantasia que é a busca da felicidade.
Tornando-se assim, ora Adônis, ora Quasimodo, um Baco a procura de Ariane. Por vezes estive próximo de concretizar este objetivo (transformar o sonho em realidade), sem que houvesse culpados (todos de forma certa, o somos), tais fins nunca concretizavam.
Para aplacar esta desilusão fomos dotados dá capacidade de sonhar e é isso que alimenta,
Pois:
"SE QUERES QUE EU SONHE"
Tu queres que eu sonhe!
que ao menos dormindo
Conheça alegrias, desfrute prazeres,
Que nunca provei;
Que ao menos nas asas de um sonho mentido, Perdido
arroubado, também diga amei!
Tu queres que eu sonhe!
não sabes que a vida
Me corre penosa, que amarga pôr vezes
A própria ilusão!
No pálido riso de uma alma afligida,
Que na vida ser lenda,
que dores não vão!
Se o pranto, que os olhos cansados inflama,
Nos Olhos de estranhos simpático brilha,
Mais agro penar.
Do triste o sorriso nos peitos derrama,
Se a chama revela, que almeja ocultar.
Sonhando , percebo na mente agitada
Um mar sem limites, areias fundidas
Aos raios de sol;
E um marco não vejo perdido na estrada
Cansada, não vejo longínquo farol!
E queres que eu sonhe!
Nas águas revoltas
O nauta, ludíbrio de horrenda procela,
Se pode dormir,
As vagas cruzadas, em sustos envoltas,
Ás soltas escuta raivosas bramir.
Talvez porém sonha que as ondas mendaces
O levam domadas à terra querida,
Que entrou em seus lares!.....
E triste desperta que os ventos fugaces
Nas faces a espuma lhe atiram dos mares.
Se queres que eu sonhe que alguma alegria
Dormindo conheça, que frua prazeres
De um plácido amor;
Vem tu como estrela da noite sombria,
Que enfia seus raios das selvas no horror,
Brilhar nos meus sonhos
Então sossegado,
Cismando prazeres, que na alma se entranham,
De um riso dos teus.
Coberto o meu rosto, fugira o meu fado
Quebrado aos encantos de um anjo dos céus.
Vem junto ao meu leito, quando eu for dormido
Que eu sinta os perfume que exalas passando;
Não sofro - direis:
E ao menos nas asas de um sonho mentido, Perdido
arroubado, talvez diga: amei
"Gonçalves Dias"

Fecho!
CãRiùá TaTaRaNa
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Ci>> tenho pelo menos um livro para escrever sobre o assunto acima... mas como não acabei o mesmo, permaneço em silêncio... no entanto, devo ressaltar: que beleza de poema, que bela forma de abrir os sentimentos entre os que te lêem... amigo, você é divinamente sábio! Parabéns mais uma vez, me sinto até um tanto exposta quando publico um texto teu, de tamanha afinidade com o que vc traz! Um grande abraço!

Um comentário:

  1. "Tal como do seu sono despertara,
    a túnica desfeita, os pés descalços,
    a solta cabeleira de açafrão
    flutuando na espádua,
    a crueldade de Teseu gritava
    às ondas que a sua voz não escutavam
    e uma chuva de lágrimas cobria
    a delicada face
    daquela que chorar não merecia.
    (...)
    Mas eis que o carro que coroara de uvas
    já as douradas rédeas o deus abandonava
    aos tigres atrelados.
    Perde Ariana a voz enquanto empalidece
    e da memória a imagem de Teseu desaparece.
    Três vezes quis fugir,
    três vezes o assombro, o temor a prendeu.
    Como a estéril espiga agitada pelo vento,
    como as ligeiras canas no lamacento pântano,
    Ariana tremeu.
    E o deus assim lhe disse:
    'Venho para te oferecer um amor mais fiel.
    Não fiques assustada.
    É Baco, ó Ariana, que terás por esposo.
    Aceita o céu como presente de noivado,
    o céu onde serás um astro admirado."

    Ovídio, em A Arte de Amar

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