terça-feira, 27 de outubro de 2009

Gente que instiga

"Iago é a sombra maligna que existe dentro de cada coração humano disposto a se entregar ao ódio, à inveja e ao orgulho. O mais perverso personagem de Shakespeare, ele é também um dos mais universais..."



Gente que instiga
(por Alexandre Pelegi)
Há pessoas que são instigantes.
Como nossa língua é rica, cabe antes fazer aqui uma distinção. Há os que conjugam o verbo em seu sentido negativo: incitam, induzem, açulam, acirram... Provocam a discórdia, retiram do outro seus instintos mais negativos, geram a cizânia e o descontrole, se aproveitam da fraqueza alheia.
São pessoas que carregam em si o arquétipo de Iago, personagem da tragédia Otelo, do genial Shakespeare. Iago é ambicioso, cínico e sem qualquer limite moral. É astuto, intrigante, falso, velhaco. Usa das fraquezas de Otelo – o ciúme e a insegurança – para jogá-lo contra sua amada Desdêmona. Não o melhora, antes o destrói.
Falo aqui de pessoas instigantes no sentido positivo. São aquelas que me põem em movimento, que retiram de mim o que tenho de melhor e que muitas vezes desconheço. É como se enviassem o tempo todo recados poderosos, que sinalizam um caminho a seguir quando me acho perdido, que me fazem saltar um obstáculo que julgara intransponível, que me estimulam a conhecer melhor e mais fundo um setor da vida para o qual preciso me voltar. Em suma, me obrigam a me tornar alguém melhor.
O curioso é que boa parte disso acontece muitas vezes de forma involuntária. Há pessoas que me instigam e que sequer sabem que existo. Um livro às vezes provoca em mim uma enxurrada de sentimentos bons. Uma palestra pode me levar a reconhecer e organizar dúvidas produtivas. Um exemplo de vida de alguém que já se foi deste mundo pode me ensinar a lição divina da persistência e da constância. É gente assim que puxa o mundo para frente. Que faz girar as rodas de um mecanismo que busca a transformação, que luta contra o conformismo humano.
Procure por gente assim, seja pelo exemplo que deixaram, seja pela vida emblemática que vivem, seja por suas palavras ou por seus escritos. Mas não restrinja sua observação a ícones ou símbolos. Nós tornamos os deuses inatingíveis...
Assim como eu, você seguramente terá pessoas assim em sua vida. Talvez eu mesmo, sem o saber, instigue gente que sequer conheço, seja pelo que escrevo, seja pelo que digo. Você talvez faça o mesmo. Formamos, sem o saber, uma rede que produz uma energia boa, contagiante, que tem o poder de nos elevar e de produzir um mundo melhor.
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Ci>> e qual a graça da vida, senão dividir, partilhar, compartilhar? Para que aprender, se depois não tivermos a quem ensinar? Para que viver um grande amor, se depois não pudermos contar como foram os momentos mais bonitos, e porque não os mais amargos dele também? De que vale a história, se ao final do que foi dito, feito, vivido não for transformado em estímulo para que outras histórias sejam escritas? Qual a vantagem de ler um bom livro, se ao final dele nada pudermos acrescentar em nossas vidas? Absolutamente tudo o que vivemos é instigante, até mesmo as coisas ruins, até mesmo os piores beijos, as maiores decepções. Aprender a tirar o melhor de tudo o que vivemos é uma dádiva que POUCOS do verbo quase ninguém sabe praticar! EU PRATICO, TODO DIA!

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