quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Quem é menos burro?


Não interessa se você é homem ou mulher: o sexo não diz nada sobre o tamanho da inteligência. Mas nem por isso os dois têm cérebros iguais. Veja como essas diferenças podem influenciar nas escolhas mais importantes da sua vida. E dizer quem você é.



Quem é menos burro?

Auditório da Escola Primária de Springfield. Diante da platéia, o diretor Seymour Skinner homenageia uma ex-aluna que se deu bem no show businnes: "Ela só tirava boas notas! Não em matemática, já que ela é mulher, mas..." Au! Falou a coisa errada na pior hora. As mulheres que lotam o lugar vaiam e pedem a cabeça do diretor. E ele perde o emprego. Entra uma diretora no lugar e ela tira a matemática tradicional do currículo das meninas, por se tratar de uma "ciência machista". Tudo para o desespero de Lisa, que adora problemas e equações.


Esse episódio de Os Simpsons brinca com aquela polêmica de 2005, quando o então reitor da Universidade Harvard, Lawrence Summers, disse que havia explicações biológicas para o fato de haver poucas mulheres na elite científica. Mas até que ponto Summers falou besteira? Tudo começa com um fato: quando o assunto é aptidão para ciências exatas, as diferenças estatísticas são claras. Mais de 70% dos estudantes de engenharia no Brasil são homens, enquanto as mulheres dominam nas ciências humanas. No Programa Internacional de Avaliação de Alunos, um exame aplicado em 42 países, a nota média das meninas é maior que a dos meninos em compreensão de texto. E menor em matemática. 

Com tudo isso, fica a polêmica: o que causa essas disparidades? Seriam resultado de discriminação, já que as meninas seriam desencorajadas de se dedicar a "coisas de homem"? Ou as aptidões de cada sexo são diferentes mesmo? A resposta é: um pouco de cada. 

Começando pela biologia. O que não falta são evidências de algo que você já sabe: as mulheres entendem melhor de pessoas; os homens, de coisas. Elas são mais habilidosas para saber o que o outro está sentindo, enquanto eles levam mais jeito com objetos, ferramentas, sistemas mecânicos. "Grande novidade", diria qualquer um. Mas existe uma novidade, sim. Estudos recentes mostram que essas características se manifestam desde os primeiros momentos da vida, o que põe em xeque a teoria de que esse tipo de comportamento é resultado apenas da sociedade – que "doutrinaria" ao dar bonecas a elas e caminhõezinhos a eles. "Nossas pesquisas em Cambridge mostram que as crianças apresentam sinais dessas aptidões logo ao nascer: as meninas olham rostos por mais tempo e os meninos se concentram mais em móbiles. Com 1 ano de idade, os garotos mostram uma preferência bem maior por filmes de carros (sistemas mecânicos) do que por vídeos mostrando rostos (cheios de expressões emocionais). E as meninas têm um comportamento oposto", disse o psicólogo inglês Simon Baron-Cohen em um artigo sobre seus estudos. 

O comportamento, aliás, nem é exclusividade de nós, humanos : macaquinhos gostam mais de brincar com caminhões de plástico do que macaquinhas. Esse tipo de predileção dá origem a outra diferença comprovada por centenas de estudos: a de que os homens têm mais habilidade para imaginar objetos tridimensionais e girá-los com a mente. Não, isso não serve só para jogar tetris. A manipulação mental de coisas é a essência do pensamento matemático abstrato. Quem leu a reportagem sobre os maiores cérebros do mundo viu que as idéias de Einstein surgiam para ele na forma de imagens que se combinavam na cabeça, e só depois iam para o papel na forma de equações. Além dele, cientistas quase tão importantes quanto o alemão, como Michael Faraday, James Maxwell, Nicola Tesla e James Watson, diziam fazer a mesma coisa. Então é natural que os homens tendam a escolher carreiras em que essa capacidade faz a diferença. Daí as classes de física e de engenharia lotadas de marmanjos. Entre as mulheres, vale o contrário. Como a habilidade de lidar com pessoas tem mais a ver com o cérebro feminino, elas em geral se sentem mais atraídas por carreiras em que vão lidar com gente ou com sentimentos, como psicologia, medicina, letras, educação... 

Ainda assim, fica a questão da falta de mulheres no topo científico. A resposta pode estar em uma estatística: as médias de inteligência são idênticas para homens e mulheres. Mas o QI dos machos varia mais: os homens são maioria tanto entre as pessoas mais broncas como entre as de QI mais alto. "Mais prodígios, mais idiotas", resumiu o psicólogo Steven Pinker, de Harvard. 

Só cuidado para não generalizar: tudo o que você viu aqui são estatísticas. Falar sobre as aptidões intelectuais de cada sexo é como avaliar a altura média da população. Os machos são mais altos? Sim, mas isso não significa que não existam mulheres maiores que homens. Sem falar que, quando o assunto é a mente, as diferenças são mais sutis. E o que não falta são mulheres mais competentes que homens mesmo em ciências exatas – e nada impede que agora mesmo existam várias mais competentes nessa área que qualquer homem da face da Terra. Mais: o próprio Baron-Cohen diz que seus estudos também mostram muitos homens com "cérebros femininos", que preferem pessoas a coisas, e mulheres com "mentes masculinas". Só que isso não invalida os dados sobre a média. 


Revolução das mulheres


Mas até que ponto a sociedade influi no desempenho das meninas com exatas? Se o mundo fosse menos machista, a diferença diminuiria? Sim. O Teste de Aptidão Escolar, que todo estudante americano tem de fazer antes de entrar para a universidade, é um belo termômetro disso: conforme as mulheres foram ganhando espaço na sociedade, a distância entre meninos e meninas nas provas de matemática minguou. Há 30 anos, havia 13 machos para cada fêmea entre os que tiravam mais de 700 em matemática nesse teste (uma nota alta). Hoje são 2,8 por um. Quando a nota de corte sobe para 760, a proporção de homens cresce junto: vai a 7 para 1. Mas de novo: isso não invalida o dado de que as garotas tiveram um ganho absurdo depois que a opressão diminuiu. E hoje, as meninas têm mais chance de fazer e acontecer na área que acharem melhor, sem ninguém para encher a paciência. A não ser que seu nome seja Lisa Simpson. 

(Texto de Alexandre Versignassi e Giovana Girardi - matéria extraída do site da revista Superinteressante - edição 256, agosto/2008)

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