terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Aprendendo com os acertos

Poetas têm o sagrado direito à pedagogia do erro, pois esta é sua forma de praticar a liberdade. Para eles, errar é o jeito de acertar na vida, como bons arqueiros, dando-nos a lição involuntária de que ela, sim, deve ser eleita como nosso maior alvo.


Aprendendo com os acertos
(por Alexandre Pelegi)

Dizem que a gente aprende com os erros, mas pra mim tal regra jamais funcionou. Coincidência ou não, meus maiores aprendizados nasceram sempre após bons acertos. Daí a acreditar que aprendo com os êxitos. Os erros, esses têm sobre mim um efeito broxante - me tiram do sério, me provocam náuseas além de uma terrível preguiça de prosseguir. O erro, pra mim, dura pouco, muito pouco; deixo o barco furado antes que a água suba e parto pra refazer meu plano de viagem, mudando o roteiro ou procurando carona para prosseguir vivendo.
Viver não tem nada a ver com errar. Errar é coisa de suicida, gente que prefere cair fora antes de tentar. É papo de chato, que escolhe a repetição monocórdica da água - como se água fosse! -, e confunde o resto a pedras, que um dia serão furadas por sua insistente chatice.
Errar é desumano, isso sim, os animais que o digam, quer dizer, os animais nos mostram isso o tempo todo. Animal não tem o dom do improviso, tampouco sabe que felicidade é um negócio por demais complexo. A simplicidade animal é apenas sobrevivência, nada mais... Quem acha que aprende com o erro, me perdoe, mas desconfio que é daqueles que prefere acertar por exclusão, jamais por opção; do tipo que se entrega à sorte, como se jogasse par ou impar com a vida. Vai que dá certo, né?
O poeta Paulo Leminski escreveu certa feita:
nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez
O erro que aprenda, pois cabe a cada um se aperceber da tortura que é passar a vida a dar cabeçadas na parede, quando a poucos metros a porta destrancada aguarda apenas o gesto bestial de ser aberta com suavidade e naturalidade...
Leminski era poeta, e poetas têm o sagrado direito à pedagogia do erro, pois esta é sua maneira torta de praticar a liberdade. Para os poetas, errar é o jeito avesso com que buscam acertar a vida. Como bons arqueiros, eles nos dão a lição involuntária de que ela, sim, - a vida -, deve ser sempre eleita como o grande alvo final.
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Ci>> O dificil mesmo é se permitir errar... quando nao estamos acostumados a tentar pelo erro, e erramos, sentimos uma dor extrema, uma vontade louca de apagar tudo e recomeçar, ao contrario do que deveriamos: começar de onde paramos e aprender com aquele erro para não repetir... o ser humano ainda é falho demais para aprender com o erro, melhor excluir ele da história, o erro incomoda...

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