quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Revelações

photographer_eve_arnold.jpg(por Alexandre Pelegi)

Não consigo usar máquina fotográfica digital. Pode me chamar de ultrapassado, jurássico, o que mais quiser. A magia da fotografia tradicional, já esta sempre me encantou. O mistério do resultado, que fica em segredo até o dia da revelação, sempre me deixou enlevado. Revelação, bela palavra! Somente depois de alguns dias é que se descobre se aquela imagem trazida na retina é a mesma que se conseguiu capturar. É quando o passado se revela diante da gente, mostrando detalhes que não reparamos, fatos que não lembrávamos, humores não percebidos. A fotografia nos concede o tempo precioso para a maturação, intervalo único para identificar o quanto de memória guardamos do mundo.

Uma foto tem a magia de nos levar de volta ao passado, de exercitar nossa memória com a descoberta de fatos que valeram a pena e de pessoas que sumiram de nossa vida sem deixar poeira... Outro dia pude rever fotografias antigas na casa de meus pais, muitas que não via há décadas. Vi minha primeira “namoradinha”, de um tempo em que a vergonha era a primeira descoberta do ritual que antecedia o namoro. Mirrada, as pernas finas sobressaindo dum vestido estampado, o cabelo cobrindo os olhos em meio ao que parecia ser um vento forte, ela sorria de forma cativante. Era o flagrante de um instante único de felicidade! Ela e eu tínhamos perto de 10 anos de idade, crianças que, ao contrário do que canta Cássia Eller, conheciam a verdade... de gostar da vida.

Não sei como ela está hoje, nem gostaria de saber... Aquela foto, no entanto, mostrou-me o poder de um sorriso, que atravessou as grossas paredes dos anos superando humores e problemas. Aquele flagrante de uma partícula minúscula de tempo e espaço me fez sentir novamente as sensações de uma paixão inocente, do frio na barriga, do mistério que é se apaixonar. É algo que ficou no passado, é vero, mas que por isso mesmo pode apenas ser relembrado e, graças a isso, revivido...

A magia de relembrar o que senti na infância me fez descobrir que, apesar e além dos anos, certas sensações permanecem comigo até hoje. Eu até arriscaria dizer que ficaram pra sempre, seja lá o que significa a eternidade pra nós, pobres humanos. Já a foto digital... bom, deixa pra lá. A cada tempo suas traquitanas e idiossincrasias!

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Ci>> Hildeberg Rosenthal está em exposição no MAP de São Paulo. Quem tiver interesse, imagino que seja magnífico (pois ela é). Acho que vou terminar o curso de fotografia viu... a ver...

 

Um comentário:

  1. Bom testo, sãopaulina querida, sabe que eu não tinha pensado na magia das revelações das antigas maquínas em comparação com a mostragem instânea da maquína digital.

    Bem escolhido o texto, cativante, interessante e ao mesmo tempo achei lúdico.

    Na cordialidade de sempre,

    Fran.

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