domingo, 14 de novembro de 2010

Riqueza: ser rico sem ser milionário ou pensar em dinheiro

Riqueza é um estado mental que se reflete em nossas atitudes, amizades,
família e trabalho. Começo a perceber que a consequência para uma mente
verdadeiramente rica é o dia-a-dia com qualidade de vida. Não consigo
acreditar que o profissional bem remunerado que precisa carregar dois, três
celulares e trabalhar 14 horas por dia seja uma pessoa rica. Ser rico é
muito mais do que ter muito dinheiro. Você, o que acha?
A cada dia que passa fico mais convencido de que a riqueza não é uma busca,
mas uma simples constatação. Ser rico é desfrutar o dia, sorrir para o
estranho e usar palavras carinhosas para descrever seu amor à família; é
viver ao lado de quem nos faz bem, perto de quem nos quer bem e podendo
desfrutar de manias, momentos de reflexão e algum trabalho.
Ser rico é ter tempo para ser você, sem culpa pelo que abdica para que essa
realidade se apresente.
A tecnologia avança, as barreiras deixam de existir. Fica fácil negociar com
qualquer um, em qualquer lugar do mundo, a qualquer hora. O celular funciona
como plataforma de trabalho e dele podemos extrair relatórios, fazer
conferências e até mesmo comprar e vender ativos. Chamam isso de liberdade?
E o e-mail e o SMS que tiraram o charme da comunicação escrita? A mensagem
sai daqui e chega lá num piscar de olhos, não dá tempo de se arrepender. Não
dá tempo de dar tempo ao que realmente se pretende tecer com as palavras.
Teclamos, teclamos. Se a resposta não chega em minutos, recebemos outra
mensagem. Ou o telefone toca. A hiperconectividade gera ansiedade, qualquer
medida é urgente, toda demora é digna de repreensão.
Não me admira que existam técnicas diversas para dar conta da "Caixa de
Entrada". Respostas a e-mails em poucas linhas, organização em pastas,
respostas em lote. Como também existem técnicas para realizar reuniões mais
rápidas, para usar melhor o telefone celular ou o computador. E quem ensina
a amar? Quem ensina como valorizar a família? Quem ensina a ser mais feliz?
Rico de Verdade, como bem diz Roberto Tranjan, é outra coisa.
Gerações passadas aproveitavam o domingo para reunir a família em torno de
deliciosas pamonhas. Quem conhece a receita da pamonha sabe que é épico e
demorado o trabalho para transformar o milho neste delicioso doce. A família
sabia disso e fazia da tarefa na cozinha um momento de comunhão. Passavam o
dia cozinhando, conversando e, mais importante, curtindo uns aos outros. O
telefone não tocava, não existia ou era item de luxo. Não havia MSN.
Hoje existe uma profusão de restaurantes tipo Self-Service. O almoço de
domingo dura pouco mais de uma hora, com os jovens reclamando da demora – a
vontade de isolar-se no computador, em casa, é imensa – e os mais jovens
grudados aos Nintendo DS, iPhones enquanto esperam pela comida. A isso o
genial educador Mário Sérgio Cortella chama de "despamonhalização da
sociedade".
Cabe lembrar a situação do profissional nas empresas. Em muitas delas, o
funcionário tem apenas uma hora de almoço. Precisa correr, comer,
corresponder. Regras. Procedimentos. Horário. Como ser humano sendo chamado
de recurso? Humanizar as relações profissionais é tema urgente, como muito
bem defende Bernadette Vilhena e Eduardo Cupaiolo.
Parece não haver saída, só justificativas. Resta aceitar o sistema (palavra
da moda) porque dele se obterá recursos financeiros suficientes para
melhorar o padrão de vida familiar, para viajar mais, para comprar isso, ter
aquilo. Para morar em uma casa maior. Para dirigir um carro melhor.
Infelizmente, para muitos a riqueza tem apenas fins de inclusão social.
Ostentar para parecer mais. Para ser e fazer sombra.
Enquanto isso cada vez mais casamentos terminam, disfarçados pelos problemas
financeiros, uns tantos filhos se apoiam nas drogas para experimentar o novo
e carreiras promissoras são encerradas por delicados traumas psicológicos e
de saúde. O arrependimento invade o lar como um tsunami e passa arrasador,
levando consigo o significado de família, seus retratos felizes e momentos
marcantes.
Nestas situações, o inventário é sempre triste: faltou o diálogo sincero,
sem que alguém sempre precisasse ter a última palavra; faltou ouvir; faltou
chegar em casa mais cedo e surpreender quem se amou com uma flor; faltou
sujar-se na cozinha tentando fazer uma receita para o jantar familiar;
faltou rir mais; faltou dizer "obrigado", "por favor" com mais frequência;
faltou ser criticado sem retrucar; faltou ser humilde.
Faltou ser fiel ao princípio básico da riqueza: enriquecer também o todo que
nos cerca. De que adianta acumular dinheiro enquanto a família se desagrega?
Achar possível que o dinheiro compre carinho, admiração e felicidade é ser
ingênuo. Para estes, o dinheiro serve apenas como consolo, um misto de culpa
e tristeza.
E daí? Onde é que tudo isso se relaciona com as finanças pessoais, tema
principal deste espaço? Por que o desabafo? Dinheiro não pode ser problema,
tem que ser solução. Ora, a riqueza pressupõe equilíbrio para que seja
sustentável. Se tiver que escolher, escolha a qualidade de vida. Sempre. Se
tiver que recomeçar, mudando inclusive de cidade e profissão, faça-o. Não
hesite, aconteça. Se for chamado de hipócrita, ria. Sorria.
Ser rico não é ter a conta bancária recheada, o apartamento mais luxuoso e a
roupa da moda. Ser rico é suspirar ao ler este artigo, deixar que os olhos
fiquem marejados se isso trouxer algum conforto e permitir que a mente lhe
encha a imaginação de flashes. Como é bom estar vivo, não? Pois o rico é
estar vivo e despertar nos outros esta sensação. O dinheiro faz parte,
depende de você ver nele possibilidades de ser mais feliz.

Publicado por Conrado Navarro em 19 19UTC outubro 19UTC 2010 (1:21 pm) na
categoria Educação Financeira
Artigo publicado no Dinheirama - Economia, Investimentos e Educação
Financeira ao alcance de todos - http://dinheirama.com
URL do artigo:
http://dinheirama.com/blog/2010/10/19/riqueza-ser-rico-sem-ser-milionario-ou-pensar-em-dinheiro/

Nenhum comentário:

Postar um comentário